sexta-feira, 18 de maio de 2012

Merval Pereira: Esgotou-se o atual modelo econômico brasileiro

O economista Claudio Frischtak, presidente da Inter.B Consultoria Internacional de Negócios, apresentou no Fórum Nacional, tradicionalmente organizado pelo ex-ministro João Paulo dos Reis Velloso, um interessante trabalho sobre as limitações do atual modelo econômico brasileiro, a despeito dos avanços registrados nas duas últimas décadas: uma combinação de estabilidade macroeconômica e redução da desigualdade e da pobreza, acompanhada de uma expansão do consumo nas camadas tradicionalmente mais afastadas do mercado.


Frischtak registra a incorporação de cerca de 60 milhões de pessoas na classe média, que passou a ser majoritária no país, mas adverte que “este modelo está se exaurindo”, em consequência de uma combinação de baixa produtividade da economia, “que, em parte, reflete o fato de que o mercado de trabalho vem absorvendo os menos educados e experientes”, com níveis insuficientes de investimento em infraestrutura e em capital humano, e limitações pelo lado da demanda, “inclusive por força da fragilidade financeira da classe C e D”.

A capacidade de crescimento e o desempenho da economia vêm sendo corroídos, afirma o economista em seu trabalho. Para ele, “há uma dissonância crescente entre o consumo de bens individuais e a produção e consumo de bens coletivos”, como infraestrutura física e social, inclusive a geração e disseminação do conhecimento.

O economista Claudio Frischtak vê o país caminhando “no fio da navalha” e considera “imprescindível” uma transição para um modelo de social-democracia voltado aos investimentos da produção de bens coletivos, para aumentar a produtividade e melhorar o nível de bem-estar da população, “mais além de uma economia de transferências”.

A expansão sustentada do consumo a um ritmo muito superior ao crescimento da própria economia foi possível, diz o estudo, por uma combinação “de forte dinamismo do mercado de trabalho diferencialmente voltado para a base da pirâmide, e transferências previdenciárias e de assistência social da ordem de 15% do PIB, além de um rápido crescimento do crédito”.

Mas o dinamismo do mercado doméstico não está assegurado para os próximos anos, porque, Frischtak mostra no estudo, a “nova classe média” depende da renda de trabalho e de transferências para fazer face aos compromissos de um endividamento crescente, não tendo tipicamente ativos para se desfazer e saldar dívidas.

“Na desaceleração da economia, os índices de inadimplência rapidamente se elevam, e a espiral virtuosa se transmuta em viciosa.”

De fato, a inadimplência do consumidor cresceu 4,8% em abril deste ano, em comparação a março, registrando a maior alta para esse mês desde 2002, de acordo com pesquisa divulgada esta semana pela Serasa Experian.

Em comparação a abril do ano passado, a inadimplência aumentou 23,7%, alta puxada pelas dívidas não bancárias de cartões de crédito, financeiras, lojas em geral e prestadoras de serviços.

É enganosa a percepção de que o crédito brasileiro, que está em cerca de 50% do PIB, tem ainda margem para crescer porque em países como os Estados Unidos ou Inglaterra ele passa de 100%.

A dívida americana, sem crédito imobiliário, beira os 16% do PIB, enquanto no Brasil já passa de 30%.

O trabalho de Claudio Frischtak mostra que a produção de bens coletivos terá uma dupla função: pelo lado da oferta, impulsionar a produtividade e a competitividade da economia; pelo lado da demanda, progressivamente deslocar o consumo de bens individuais à medida que se esgota a capacidade das novas camadas de expandir de forma acelerada o consumo.

O investimento na produção de bens coletivos irá necessitar, porém, de ações em duas frentes distintas, ambas relacionadas a uma Agenda de Reforma do Estado, aponta o estudo.

Primeiro, uma realocação dos gastos do setor público, com a gradativa redução (em termos relativos) das transferências previdenciárias e sociais, e a proteção dos programas mais bem focalizados, a exemplo do Bolsa Família. “Não há como criar espaço fiscal aumentando os tributos”, adverte Frischtak.

Nesse contexto, ele defende que é “imprescindível a mudança de políticas e regras — a exemplo de o salário mínimo deixar de ser o indexador das despesas previdenciárias”.

Numa segunda frente, “é crítico reforçar a capacidade do Estado de planejamento, regulação, fiscalização, monitoramento e execução de serviços, de modo que os recursos poupados sejam direcionados com eficácia para expandir os investimentos em bens coletivos —infraestrutura física e social — e melhorar a capacidade organizacional da prestação pública de serviços de qualidade”.

A Agenda de Reforma é a base do Mapa da Produtividade, “um conjunto articulado de ações tendo por foco o capital humano; como eixo, a educação; e como resultado a disseminação e absorção de conhecimento em todos os níveis”.

O economista Claudio Frischtak afirma que “não há como sustentar a melhoria do bem-estar da população com uma escola pública de má qualidade, incompatível com as demandas de uma economia competitiva”.

O país continuará a progredir a passos lentos no que é mais essencial a menos que a educação passe a ser prioridade total para o governo.

Embora reconheça que o país realizou progressos no âmbito científico, e mais modestos no plano da inovação, Frischtak diz que há necessidade de se definirem projetos transformadores, capazes de mobilizar recursos — instituições, empresas, indivíduos — e gerar inovações em torno de temas centrais para a nova economia.

“Uma economia mais produtiva e uma sociedade mais igual, alicerçadas numa revolução educacional e em investimentos na infraestrutura física, serão a base da melhoria do bem-estar da população”.

Merval Pereira, O Globo, 18/05/12

5 comentários:

Carlos Wagner disse...

Haha... Eu digo isso de graça para meus amigos há pelo menos tres anos e ainda hoje sou taxado como maluco.

Bom, sou apenas frustrado que perdeu o bonde, entende?

Mas, no final das contas, meu maior prejuizo será uma boa poupança, salario livre de compromentimento com dividas, obrigações locaticias de imovel de alto padrao por 0,3% do seu valor e uma vida tranquila e feliz.

Que sina essa minha viu compadres!!!

Kássia Tavares disse...

É claro que nos valores atuais não vale a pena mesmo comprar imóvel, do ponto de vista estritamente financeiro.
Mas é fato também que um imóvel próprio traz benefícios sociais e psicológicos importantes que vão além da mera questão financeira, sobretudo para quem tem família e filhos. Nesse sentido, um local mais estável é interessante.
Outro ponto importante é que o momento está propício aos compradores, com vendas estagnadas e muitos descontos nos imóveis prontos.
Não acho que haverá quedas expressivas nos próximos anos, de modo que, se eu estivesse esperando para comprar, agora acho que seria um bom momento.

Carlos Wagner disse...

Talvez a sua visão de negocios seja totalmente diferente da minha. Eu acho que este é o momento em que não se deve nem passar perto de comprar um imovel simplesmente porque: Não se compra um ativo na extrema alta de mercado; Não se compra um ativo que tem potencial de desvalorização iminente; Não se compra um ativo que não apresenta perspectiva de valorização.

Quanto ao lugas estavel, concordo com voce, mas não preciso vender minha alma ao diabo pra viver num lugar estavel. É mais prudente esperar e ver o que acontece. Viver bem é ter capacidade financeira disponivel para poder escolher qual caminho seguir e não estar comprometido pelo resto da vida em seguir um caminho de servidão aos bancos.

Morar em imovel proprio nunca foi sinonimo de estabilidade. Na atual conjuntura, entrar numa divida dessas na situação economica do país e viver na corda bamba talvez pelo resto da vida.

Flaviohertel disse...

"Mas é fato também que um imóvel próprio traz benefícios sociais e psicológicos importantes que vão além da mera questão financeira, sobretudo para quem tem família e filhos. Nesse sentido, um local mais estável é interessante."

Infelizmente ter um imovel "proprio" não é sinônimo de estabilidade no Brasil, não se este imovel for financiado.

Com a nova legislação que instituiu a Alienação Fiduciária, o imovel pertence a instituição bancaria que o financiou. O tomador de credito tem direito apenas ao usufruto do mesmo, ainda sim enquanto não atrasar mais do que 3 meses de prestação, feito isto inicia-se o processo de retomada do bem pelo intituição financeira.

Em suma, para quem financia um imovel no Brasil, a segurança psicológica de morar no que lhe percente, só virá ao fim do financiamento bancario o que para alguns brasileiros demorará, com as novas regras, até 35 anos.

Kássia Tavares disse...

Mesmo assim é melhor que o aluguel, já que neste caso, mesmo que o inquilino pague tudo em dia, ainda assim o imóvel pode ser retomado pelo proprietário do imóvel a qualquer momento, criando uma grande insegurança para a família.

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